No estacionamento do hipermercado, enquanto eu pego meu carrinho e procuro minha lista de compras dentro do bolso, noto um Corolla estacionando em uma das vagas destinadas a portadores de deficiência física.
Por algum motivo, fico observando e em seguida sai do carro uma adolescente, do lado do passageiro e do motorista desce uma mulher de seus cinquenta anos ou menos, caminhando normalmente. Procurei no carro um adesivo qualquer que identifique um carro de deficiente, e nada. Daí eu olhei em volta... vi os taxistas sentados observando a cena, como se ela se repetisse ao longo de todo o dia, vi umas senhorinhas esperando por alguém, umas funcionárias do supermercado conversando e ninguém parecia notar o que acabara de acontecer mas eu... eu estava explodindo, num misto de indignação, vergonha e raiva. Indignação porque não consigo assimilar que, apesar de todas as indentificações, placas e etc indicando que a vaga é para deficientes, uma pessoa sem nenhuma (exceto a mental) pare o carro assim, na maior cara-de-pau. Vergonha porque fiquei imaginando que eu vivo mesmo numa terra de ninguém, onde a lei é tirar vantagem sempre - não importa como, nem de quem, nem de que forma. E raiva porque aquela mulher, naquele momento virou a síntese de tudo que eu mais abomino em um ser humano (?).
Não tive dúvidas, chamei a mulher e perguntei se ela já tinha ouvido falar em vaga reservada para deficiente. Ela ficou meio espantada com a pergunta, como se inclusive fosse um despropósito fazê-la. A falta de educação, de respeito com o outro e a certeza da impunidade juntas formam uma criatura como aquele na minha frente - uma mulher desclassificada.
Como resposta ela me disse que "não ia discutir comigo". Rá! Como se ela pudesse fazê-lo! Deu-me as costas e saiu caminhando tranquilamente como se naquele momento ela estivesse coberta de razão e eu, pobre infeliz, estivesse apenas nadando contra a maré.
A filha adolescente, com a capacidade de argumentação de uma chave de fenda, ainda teve tempo de blasfemar alguma coisa e soltar uns impropérios e palavrões, também muito indignada com a minha pergunta.
A certeza de que eu adoraria encher aquela cara de bolachas veio no mesmo instante em que eu parei e olhei novamente ao meu redor e vi aquelas pessoas todas alí, vendo a cena, algumas meio sem entender o que se passava, outras meio espantadas e as velhotas me olhando com um sorriso de aprovação. Nesse momento me vi alí, impotente, cansado, resignado a enfrentar um supermercado lotado, estressado, saído de um dia cansativo de trabalho, lutando por algo que eu até aquele momento achava ser o certo. Sim, porque eu estou falando de certo e errado. Não se trata de ser melhor ou pior do que aquela mulher, até porque eu não sou nem nunca fui a mais correta das criaturas, não sou e nem nunca fui exemplo para nada nessa vida. Apesar disso, naquela situação eu sabia que a razão estava comigo, porque a educação simples que tive jamais me permitiu estacionar em uma vaga reservada, sentar em um assento reservado, furar uma fila, passar a perna em alguém...
Foi triste constatar que eu, com toda essa educação, não passo de um estranho no ninho. Me deixa feliz apenas o fato de que eu ainda consiga me indignar, me revoltar. Tenho muito medo do dia em que coisas como essa não me afetarem mais. A verdade é que o mundo, meus queridos, virou um lugar bastante desagradável.
*Só pra não dizer que não falei de flores,o "queijos e vinhos" foi ótimo...quem sabe um dia, marcamos um com a galera da Blogosfera??

